Saiba como mudar de corretora sem vender seus investimentos
Você abriu sua conta na corretora, começou a investir, mas algo mudou. Talvez as taxas de corretagem, que antes eram zero, começaram a aparecer. Talvez o aplicativo viva travando nos momentos cruciais. Ou, quem sabe, o atendimento ao cliente te deixou na mão quando você mais precisava.
A vontade de mudar para uma corretora melhor é imediata, mas logo vem o medo frio na espinha: “Será que vou ter que vender todas as minhas ações, pagar Imposto de Renda sobre o lucro, transferir o dinheiro e comprar tudo de novo?”
Se esse pensamento já passou pela sua cabeça, respire aliviado. A resposta é NÃO.
Existe um processo regulamentado, seguro e (na maioria das vezes) gratuito chamado Portabilidade de Custódia. Neste artigo, vamos desvendar todos os segredos de como transferir seus investimentos de uma instituição para outra sem perder dinheiro com spreads, sem girar carteira e sem antecipar impostos.
O Que é a Portabilidade de Investimentos (STVM)?

Para entender como isso funciona, precisamos entender onde seus investimentos realmente estão. Quando você compra uma ação da Petrobras ou um título do Tesouro Direto, esses ativos não ficam “dentro” da corretora.
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Ações e FIIs: Ficam guardados na B3 (a Bolsa de Valores), registrados no seu CPF.
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Tesouro Direto: Fica registrado no sistema do Tesouro Nacional/B3, no seu CPF.
A corretora é apenas a vitrine, o intermediário. Ela detém a “custódia” (a guarda) de visualização e negociação, mas a propriedade é sua.
A STVM (Solicitação de Transferência de Valores Mobiliários) é o processo burocrático oficial em que você diz à “Corretora A” (Cedente) que deseja que a “Corretora B” (Cessionária) passe a ser a guardiã dos seus ativos. É muito similar à portabilidade de número de celular: a operadora muda, mas o número (seus ativos) continua o mesmo.
Por Que Mudar de Corretora? Identificando os Sinais
Antes de entrar na papelada, é importante validar sua decisão. Mudar de corretora dá um pouco de trabalho, então faça isso pelos motivos certos. Os principais impulsionadores de troca hoje são:
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Custo: Você ainda paga taxa de corretagem para ações ou taxa de custódia mensal? Muitas corretoras zeraram essas tarifas. Se a sua cobra, você está perdendo dinheiro.
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Estabilidade da Plataforma: Se o Home Broker cai toda vez que o mercado agita, isso custa dinheiro.
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Variedade de Produtos: Algumas corretoras de bancos grandes têm uma “prateleira” limitada, oferecendo apenas CDBs ruins do próprio banco. Corretoras independentes oferecem CDBs de centenas de bancos.
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Assessoria: Você sente falta de falar com um humano? Ou, pelo contrário, seu assessor te liga demais tentando vender produtos ruins? Ambos são motivos válidos para troca.
O Grande Mito: Preciso Pagar Imposto de Renda na Transferência?
Esta é a dúvida campeã, e a resposta precisa ficar gravada na sua mente: Transferência de custódia NÃO gera Imposto de Renda.
O Imposto de Renda só é cobrado quando ocorre o Fato Gerador, que no mercado financeiro é a venda com lucro (ou o vencimento do título).
Como na transferência você não está vendendo nada — está apenas mudando o ativo de “garagem” — não há lucro nem prejuízo a ser apurado. Para a Receita Federal, você continua com as mesmas ações, compradas pelo mesmo preço original. O seu patrimônio não mudou de valor, apenas de endereço.
O Que Posso e O Que Não Posso Transferir?

Nem tudo é portável. Antes de iniciar o processo, verifique sua carteira:
O que é facilmente transferível:
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Renda Variável: Ações, Fundos Imobiliários (FIIs), ETFs e BDRs.
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Tesouro Direto: Tesouro Selic, IPCA+ e Prefixado.
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Ouro: Ativos de ouro negociados em bolsa (OZ1D, etc.).
O que exige atenção (Análise de Compatibilidade):
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CDBs, LCIs e LCAs: Geralmente são transferíveis, mas a nova corretora precisa aceitar custodiar aquele título específico.
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Fundos de Investimento: Este é o ponto crítico. Nem todo fundo está disponível em todas as plataformas. Se você tem um fundo exclusivo do Banco X, dificilmente a Corretora Y aceitará recebê-lo. Nesse caso, você terá que pedir o resgate (vender), pagar o imposto e transferir o dinheiro.
Passo a Passo: Como Realizar a Transferência (STVM) na Prática
Antigamente, você precisava reconhecer firma em cartório e enviar documentos pelo correio. Hoje, graças à digitalização forçada pela concorrência, o processo é quase todo online.
Passo 1: Abra a conta na Nova Corretora (Cessionária)
Você não pode transferir para o “limbo”. A conta de destino já deve estar aberta e ativa.
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Importante: A titularidade deve ser exatamente a mesma. Você não pode transferir ações da sua conta CPF para a conta da sua esposa ou para sua empresa (CNPJ).
Passo 2: Obtenha o Código de Investidor da Nova Corretora
Na nova corretora, procure pelo seu código de cliente na B3. Geralmente é um número longo. Anote também a Razão Social e o CNPJ da nova corretora. Você precisará desses dados para preencher o formulário na corretora antiga.
Passo 3: Solicite a Transferência na Corretora Antiga (Cedente)
É aqui que o processo varia.
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Método Moderno (Digital): Grandes corretoras (como XP, Rico, NuInvest, BTG) já possuem uma área no site chamada “Portabilidade” ou “Transferência de Custódia”. Você preenche os dados da nova corretora, seleciona os ativos que quer enviar e assina com sua senha eletrônica.
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Método Tradicional (Formulário): Algumas corretoras antigas ou bancos tradicionais ainda exigem que você baixe um formulário PDF padrão da STVM, preencha à mão (ou no computador), assine, digitalize e envie por e-mail para o suporte.
Passo 4: O Prazo de Espera
Pela regra da CVM (Instrução 542), a corretora tem até 2 dias úteis após o recebimento do pedido válido para efetivar a transferência. Se demorar mais que isso sem justificativa, cabe denúncia na CVM e no Banco Central.
Atenção Crítica: O Problema do Preço Médio das Ações

Se você investe em ações, preste muita atenção neste tópico. É aqui que 90% dos investidores erram.
Quando suas ações chegam na nova corretora, elas chegam “sem memória”. A nova corretora sabe quantas ações você tem (ex: 100 ações de VALE3), mas ela não sabe por quanto você comprou.
Muitas vezes, o sistema da nova corretora vai mostrar o custo de aquisição como R$ 0,00 ou o preço do dia da transferência. Isso está errado para fins fiscais!
Sua tarefa obrigatória:
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Antes de sair da corretora antiga, baixe todas as suas Notas de Corretagem ou tire prints do seu preço médio.
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Assim que as ações chegarem na corretora nova, entre no sistema (geralmente no site, aba “Meus Investimentos” ou “Custódia”) e edite manualmente o Preço Médio.
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Se você não fizer isso e vender a ação no futuro, o sistema pode calcular o imposto errado ou você se perderá no cálculo do DARF.
Transferência de Renda Fixa: O Documento Secreto
Para quem transfere CDBs, LCIs ou LCAs, existe um detalhe técnico. Além do ativo, a corretora antiga deve enviar as informações de custo e data de aplicação para que o Imposto de Renda (que é regressivo com o tempo) seja calculado corretamente no futuro.
Geralmente isso é automático entre os sistemas das corretoras (via cetip), mas falhas acontecem.
Dica de segurança: Guarde os extratos e notas de negociação da Renda Fixa da corretora antiga. Se no dia do vencimento a nova corretora descontar imposto demais por erro de data, você tem a prova documental para pedir a correção.
Previdência Privada: Portabilidade é Diferente de STVM
Se você tem previdência (PGBL ou VGBL), o processo não usa o formulário STVM. É um processo específico chamado Portabilidade de Previdência.
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Você solicita diretamente na instituição de destino (na nova, não na antiga).
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Você deve respeitar a regra do “tipo com tipo”: só pode portar PGBL para PGBL e VGBL para VGBL.
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A tabela de tributação (Progressiva ou Regressiva) também deve ser mantida ou alterada apenas da Progressiva para a Regressiva (nunca o contrário).
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Vantagem: O tempo de contribuição é carregado junto. Se você tem um plano Regressivo há 8 anos (pagando 10% de IR), ao portar, você mantém esse benefício. Não zera a contagem.
Quanto Custa Mudar?
Historicamente, as corretoras cobravam taxas punitivas para deixar você sair, como a “Taxa de Transferência de Custódia”. Isso servia para prender o cliente.
Hoje, a grande maioria das corretoras isentou essa taxa. A concorrência matou essa cobrança. No entanto, bancos tradicionais grandes ainda podem cobrar algo em torno de R$ 10,00 a R$ 20,00 por ativo transferido em casos de Renda Fixa Bancária. Em ações, é quase universalmente gratuito.
Verifique sempre a tabela de custos da corretora de origem antes de começar.
Principais Motivos de Recusa (Por que sua transferência falhou?)

Você fez tudo certo, mas recebeu um e-mail dizendo “Transferência Recusada”. O que aconteceu?
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Ativos Pendentes de Liquidação: Você comprou uma ação hoje (D+0) e pediu a transferência hoje. Não vai funcionar. A ação leva 2 dias úteis (D+2) para liquidar e ficar “no seu nome” de verdade. Espere a liquidação antes de pedir.
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Dados Divergentes: Um erro de digitação no número da conta de destino ou CPF.
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Saldo Devedor: Se sua conta antiga estiver negativa, eles têm o direito de bloquear a saída dos ativos até você quitar a dívida.
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Aluguel de Ações: Se suas ações estão alugadas (Doador), você precisa pedir o encerramento do contrato de aluguel antes de transferir.
Não Seja Refém de Serviço Ruim
O mercado financeiro evoluiu. A fidelidade a uma instituição financeira deve existir apenas enquanto ela oferece bons serviços e custos justos. A partir do momento em que isso acaba, a portabilidade é o seu direito de consumidor.
Mudar de corretora sem vender seus ativos é uma estratégia inteligente de gestão patrimonial. Evita o pagamento antecipado de impostos, evita custos de transação e coloca seu dinheiro onde ele é melhor tratado.
O processo exige um pouco de paciência burocrática — talvez você perca uma hora preenchendo formulários e ajustando preços médios — mas a tranquilidade de investir por uma plataforma que você confia valerá cada minuto investido nessa mudança. Organize seus documentos e assuma o controle da sua liberdade financeira hoje mesmo.