O que as seguradoras não destacam na contratação
Contratar um seguro é comprar paz de espírito. Seja para o carro, para a casa, para a vida ou para o celular, a assinatura da apólice traz aquela sensação de alívio: “Se algo der errado, estou coberto”.
No entanto, essa sensação pode se transformar em frustração e prejuízo financeiro no momento em que você mais precisa: a hora do sinistro. É comum ouvir histórias de pessoas que pagaram o seguro religiosamente por anos, mas, ao acioná-lo, receberam uma negativa da seguradora baseada em uma cláusula técnica que nunca foi mencionada na conversa de venda.
As seguradoras não agem necessariamente de má-fé, mas o modelo de negócio delas é baseado na gestão de risco. E, para gerir esse risco, existem dezenas de exclusões, limites e condições que muitas vezes ficam enterradas nas 50 páginas das Condições Gerais da apólice.
Neste artigo definitivo, vamos desvendar o que fica nas entrelinhas. Vamos traduzir o “segurês” para o português claro e mostrar exatamente o que você precisa perguntar antes de fechar qualquer contrato, garantindo que sua proteção seja real e não apenas uma ilusão de segurança.
1. A Diferença Crucial entre “Valor de Mercado” e “Valor Determinado”

Ao contratar um seguro de automóvel, a maioria das pessoas foca apenas no preço da parcela mensal. O corretor diz: “Cobre 100% da Tabela FIPE”, e o cliente aceita. Mas existe uma pegadinha clássica aqui, especialmente para carros novos ou modificados.
O Mito da Tabela FIPE
A Tabela FIPE é uma média de mercado. Se o seu carro está impecável, com pneus novos, baixa quilometragem e acessórios caros (como som potente ou bancos de couro instalados fora da fábrica), a FIPE não reflete o valor real do seu bem.
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O que não te contam: Em caso de perda total (PT), a seguradora paga a FIPE do “modelo base”. Aquele investimento de R$ 5.000 em acessórios ou blindagem pode virar fumaça se não estiver averbado (declarado) especificamente na apólice.
A Desvalorização Relâmpago do Zero KM
Se você compra um carro zero quilômetro hoje por R$ 100.000, ao sair da concessionária ele já vale menos contabilmente. Se você tiver um sinistro na primeira semana e sua apólice for padrão (Valor de Mercado), você receberá o valor de um “usado”, perdendo dinheiro imediatamente.
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A solução oculta: Existe a cláusula de “Valor de Novo”, que garante a reposição pelo valor de nota fiscal por 6 meses ou 1 ano. Muitos vendedores não oferecem isso para deixar o seguro mais barato e fechar a venda rápido.
2. A “Franquia” Não é Apenas um Valor Fixo: As Variações que Confundem
Você sabe que, se bater o carro, precisa pagar a franquia para consertar. Mas as seguradoras raramente explicam que existem tipos de franquia que mudam drasticamente o jogo.
Franquia Reduzida vs. Majorada
Muitas vezes, para ganhar o cliente que busca preço baixo, a seguradora oferece uma apólice com custo anual menor, mas com uma Franquia Majorada (dobrada).
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O cenário: Você economizou R$ 200,00 no seguro, mas sua franquia subiu de R$ 2.000 para R$ 4.000. Se você tiver um pequeno acidente que custa R$ 3.500 para consertar, o seguro não cobrirá nada, pois o valor é inferior à franquia. Você pagou pelo seguro, mas teve que arcar com o prejuízo sozinho.
A Franquia em Caso de Perda Total
O que não te contam: Em casos de Perda Total (PT), roubo ou furto onde o veículo não é recuperado, não há cobrança de franquia. Muitos segurados leigos deixam de acionar o seguro em casos graves achando que terão que pagar a franquia, ou pior, caem em golpes de terceiros que cobram taxas inexistentes.
3. Riscos Excluídos: Quando o “Seguro Total” Não Cobre Tudo
O termo “Seguro Compreensivo” (popularmente chamado de Seguro Total) é perigoso porque dá a entender que cobre absolutamente qualquer desgraça. Não é verdade. Existem os chamados Riscos Excluídos, que são as situações onde a seguradora se isenta legalmente de pagar.
Desastres Naturais e “Força Maior”
Embora a maioria dos seguros de carro hoje cubra alagamentos e queda de árvores, seguros residenciais e empresariais são cheios de nuances.
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A pegadinha da água: Um seguro residencial pode cobrir “Danos Elétricos” (um raio que queima a TV), mas não cobrir “Alagamento” se a água entrar pela porta devido a uma chuva forte, a menos que essa cobertura específica tenha sido contratada à parte.
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Tumultos e Vandalismo: Se seu carro for depredado durante uma manifestação política ou briga de torcida, muitas apólices tradicionais classificam isso como “tumulto” ou “vandalismo generalizado” e negam a cobertura.
O Desgaste Natural (A Manutenção é Sua)
Seguro é para eventos imprevistos e súbitos. Se o motor do seu carro fundir porque você não trocou o óleo, ou se o encanamento da sua casa estourar porque os canos eram velhos e enferrujados, a seguradora não paga. Eles chamam isso de falta de manutenção ou desgaste natural.
4. O Perigo do “Perfil” e a Mentira do CEP

Na ânsia de baratear o seguro, ou instruídos por maus profissionais, muitos clientes cometem erros no preenchimento do Questionário de Avaliação de Risco.
O Condutor Principal
“Vou colocar o seguro no nome do meu pai, que é idoso e mora no interior, mas quem dirige sou eu, jovem de 20 anos na capital”.
Isso é considerado fraude. As seguradoras possuem departamentos de investigação robustos. Em caso de sinistro grave, eles entrevistam porteiros, vizinhos e checam redes sociais. Se descobrirem que o condutor habitual não era o declarado, a indenização é negada sumariamente (perda de direito).
A Garagem e o Trabalho
Dizer que o carro dorme em garagem fechada quando ele fica na rua, ou omitir que você usa o carro para trabalhar (visitar clientes, Uber), também são motivos clássicos de recusa de pagamento que não são enfatizados na hora da venda. A regra é clara: a boa-fé deve prevalecer. Mentir para economizar R$ 300,00 pode custar R$ 80.000,00 depois.
5. Seguro de Vida: Doenças Preexistentes e Carências
Saindo do mundo automotivo e entrando no seguro de vida (um nicho importantíssimo), as omissões na contratação são ainda mais delicadas.
A Declaração Pessoal de Saúde (DPS)
Ao contratar um seguro de vida, você geralmente preenche um formulário sobre sua saúde. Se você tem hipertensão ou diabetes e marca “não” para “doenças preexistentes”, a seguradora pode negar o pagamento à sua família no futuro.
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O que não destacam: Se você não sabia que estava doente, a cobertura é válida. Mas se você já tomava remédios e omitiu, é considerado má-fé.
O Período de Carência e o Suicídio
A lei brasileira (Código Civil) estabelece que o suicídio só é coberto após dois anos de vigência do contrato. Antes disso, não há indenização, apenas a devolução da reserva matemática (parte do que foi pago). Muitos corretores evitam tocar nesse assunto mórbido, mas é uma cláusula padrão e irrevogável.
6. Assistência 24 Horas: O Limite da Guincho
Essa é uma das surpresas mais desagradáveis na beira da estrada. Você compra o seguro e vê lá: “Guincho 24h”. Você assume que, se o carro quebrar no meio de uma viagem para a Bahia, o guincho vai te buscar e levar seu carro de volta para casa em São Paulo.
Errado.
A maioria das apólices básicas tem um limite de quilometragem para o guincho (ex: 100km, 200km ou 400km).
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Se você está a 600km de casa e seu limite é 200km, o guincho leva o carro até a oficina mais próxima dentro do raio, ou você paga o excedente do km rodado do seu bolso — e o preço do km de guincho particular é altíssimo.
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Dica de Ouro: Sempre verifique se a assistência de guincho é “Ilimitada” antes de fechar. A diferença de preço costuma ser irrisória perto do benefício.
7. Seguro Residencial: O Conceito de “Roubo” vs. “Furto Simples”

Você contratou seguro para sua casa. Um dia, você chega e percebe que sua bicicleta cara sumiu da garagem aberta, ou que alguém levou seu notebook que estava na varanda, sem arrombar nenhuma porta.
A seguradora provavelmente não vai pagar. Por quê?
A maioria das apólices cobre Roubo ou Furto Qualificado.
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Furto Qualificado: Deixa vestígios de arrombamento (porta quebrada, janela forçada, fechadura estourada).
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Furto Simples: O bem desaparece sem vestígios de violência ou rompimento de barreira.
Muitas seguradoras não destacam que o “Furto Simples” é um risco excluído. Se você deixou o portão destrancado e entraram, tecnicamente, facilitou-se o crime, e a cobertura cai por terra.
8. A Classe de Bônus: Seu Ativo Intransferível (Quase)
A Classe de Bônus é um desconto progressivo que você ganha a cada ano que passa sem acionar o seguro. É como um programa de fidelidade.
O que as seguradoras não explicam claramente é como você perde esse bônus.
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Acionar para Pequenos Reparos: Se você acionar o seguro para trocar um farol ou um retrovisor (usando as coberturas adicionais de vidros), em algumas seguradoras isso não tira bônus, mas em outras pode tirar.
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Sinistro de Terceiros: Se você bate no carro de alguém e aciona o seguro apenas para consertar o carro da vítima (Danos a Terceiros), você perde uma classe de bônus na renovação. Às vezes, se o conserto for barato, vale mais a pena pagar do bolso e manter o bônus intacto, pois o desconto na renovação pode ser maior que o custo do reparo.
Outro ponto: O bônus é do CPF, não do Carro ou da Corretora. Você pode trocar de carro, de seguradora e de corretor, e o bônus vai junto com você. Não deixe um gerente de banco dizer que você “perde o bônus se trocar de banco”. Isso é mentira.
9. Seguro Prestamista: A Venda Casada “Invisível”
Muitos leitores deste site buscam empréstimos e financiamentos. O que os bancos e financeiras raramente destacam (ou avisam muito rápido) é a inclusão do Seguro Prestamista.
Esse seguro serve para quitar a dívida em caso de morte ou desemprego do pagador. É um produto útil, mas muitas vezes é empurrado como “Venda Casada” (o que é ilegal no Brasil). O gerente diz que “a taxa de juros fica menor se levar o seguro”.
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O Segredo: Você tem o direito de cancelar esse seguro a qualquer momento e pedir a devolução proporcional do prêmio pago, mesmo que o empréstimo ainda esteja ativo. Poucos consumidores sabem que podem reaver esse dinheiro.
10. Como se Proteger: O Checklist da Contratação Segura

Agora que você conhece as armadilhas, como garantir uma contratação segura? Não confie apenas na palavra do vendedor. Use este checklist:
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Leia as “Condições Gerais”: Não precisa ler tudo, mas dê um “Ctrl+F” (busca) por palavras como “Riscos Excluídos”, “Carência” e “Limites”.
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Simule o Sinistro: Pergunte ao corretor: “Se acontecer X, exatamente quanto eu recebo e quanto eu pago?”. Peça a resposta por e-mail.
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Verifique a Cobertura de Terceiros (RCF-V): O padrão é baixo (R$ 50 mil). Se você bater numa BMW ou num caminhão com carga, R$ 50 mil não paga nem o para-choque. Peça pelo menos R$ 100 mil ou R$ 200 mil. Custa pouco a mais e evita sua falência pessoal.
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Não minta no perfil: A economia porca de omitir um condutor jovem nunca vale o risco de perder a indenização integral.
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Corretor Especialista vs. Gerente de Banco: O gerente de banco vende seguro como meta. O corretor de seguros vive disso e tem responsabilidade civil sobre a apólice. Prefira sempre um corretor especialista que possa defender seus interesses em caso de disputa com a seguradora.
Informação é a Melhor Cobertura
As seguradoras são instituições financeiras essenciais para a economia. Elas permitem que assumamos riscos (dirigir, abrir empresas, viajar) sabendo que existe uma rede de proteção. O problema não é o seguro em si, mas a assimetria de informação entre quem vende (que sabe tudo) e quem compra (que muitas vezes não sabe nada).
Ao entender o que as seguradoras não destacam, você deixa de ser um comprador passivo e se torna um consumidor consciente. Lembre-se: uma apólice de seguro é um contrato legal. O que vale é o que está escrito, não o que foi prometido no cafézinho.
Proteja seu patrimônio, mas proteja também o seu direito de saber exatamente o que está comprando.