janeiro 23, 2026


O que as seguradoras não destacam na contratação

O que as seguradoras não destacam na contratação

Contratar um seguro é comprar paz de espírito. Seja para o carro, para a casa, para a vida ou para o celular, a assinatura da apólice traz aquela sensação de alívio: “Se algo der errado, estou coberto”.

No entanto, essa sensação pode se transformar em frustração e prejuízo financeiro no momento em que você mais precisa: a hora do sinistro. É comum ouvir histórias de pessoas que pagaram o seguro religiosamente por anos, mas, ao acioná-lo, receberam uma negativa da seguradora baseada em uma cláusula técnica que nunca foi mencionada na conversa de venda.

As seguradoras não agem necessariamente de má-fé, mas o modelo de negócio delas é baseado na gestão de risco. E, para gerir esse risco, existem dezenas de exclusões, limites e condições que muitas vezes ficam enterradas nas 50 páginas das Condições Gerais da apólice.

Neste artigo definitivo, vamos desvendar o que fica nas entrelinhas. Vamos traduzir o “segurês” para o português claro e mostrar exatamente o que você precisa perguntar antes de fechar qualquer contrato, garantindo que sua proteção seja real e não apenas uma ilusão de segurança.

1. A Diferença Crucial entre “Valor de Mercado” e “Valor Determinado”

Segurança e Garantias: O Meu Dinheiro Está Protegido?

Ao contratar um seguro de automóvel, a maioria das pessoas foca apenas no preço da parcela mensal. O corretor diz: “Cobre 100% da Tabela FIPE”, e o cliente aceita. Mas existe uma pegadinha clássica aqui, especialmente para carros novos ou modificados.

O Mito da Tabela FIPE

A Tabela FIPE é uma média de mercado. Se o seu carro está impecável, com pneus novos, baixa quilometragem e acessórios caros (como som potente ou bancos de couro instalados fora da fábrica), a FIPE não reflete o valor real do seu bem.

  • O que não te contam: Em caso de perda total (PT), a seguradora paga a FIPE do “modelo base”. Aquele investimento de R$ 5.000 em acessórios ou blindagem pode virar fumaça se não estiver averbado (declarado) especificamente na apólice.

A Desvalorização Relâmpago do Zero KM

Se você compra um carro zero quilômetro hoje por R$ 100.000, ao sair da concessionária ele já vale menos contabilmente. Se você tiver um sinistro na primeira semana e sua apólice for padrão (Valor de Mercado), você receberá o valor de um “usado”, perdendo dinheiro imediatamente.

  • A solução oculta: Existe a cláusula de “Valor de Novo”, que garante a reposição pelo valor de nota fiscal por 6 meses ou 1 ano. Muitos vendedores não oferecem isso para deixar o seguro mais barato e fechar a venda rápido.

2. A “Franquia” Não é Apenas um Valor Fixo: As Variações que Confundem

Você sabe que, se bater o carro, precisa pagar a franquia para consertar. Mas as seguradoras raramente explicam que existem tipos de franquia que mudam drasticamente o jogo.

Franquia Reduzida vs. Majorada

Muitas vezes, para ganhar o cliente que busca preço baixo, a seguradora oferece uma apólice com custo anual menor, mas com uma Franquia Majorada (dobrada).

  • O cenário: Você economizou R$ 200,00 no seguro, mas sua franquia subiu de R$ 2.000 para R$ 4.000. Se você tiver um pequeno acidente que custa R$ 3.500 para consertar, o seguro não cobrirá nada, pois o valor é inferior à franquia. Você pagou pelo seguro, mas teve que arcar com o prejuízo sozinho.

A Franquia em Caso de Perda Total

O que não te contam: Em casos de Perda Total (PT), roubo ou furto onde o veículo não é recuperado, não há cobrança de franquia. Muitos segurados leigos deixam de acionar o seguro em casos graves achando que terão que pagar a franquia, ou pior, caem em golpes de terceiros que cobram taxas inexistentes.

3. Riscos Excluídos: Quando o “Seguro Total” Não Cobre Tudo

O termo “Seguro Compreensivo” (popularmente chamado de Seguro Total) é perigoso porque dá a entender que cobre absolutamente qualquer desgraça. Não é verdade. Existem os chamados Riscos Excluídos, que são as situações onde a seguradora se isenta legalmente de pagar.

Desastres Naturais e “Força Maior”

Embora a maioria dos seguros de carro hoje cubra alagamentos e queda de árvores, seguros residenciais e empresariais são cheios de nuances.

  • A pegadinha da água: Um seguro residencial pode cobrir “Danos Elétricos” (um raio que queima a TV), mas não cobrir “Alagamento” se a água entrar pela porta devido a uma chuva forte, a menos que essa cobertura específica tenha sido contratada à parte.

  • Tumultos e Vandalismo: Se seu carro for depredado durante uma manifestação política ou briga de torcida, muitas apólices tradicionais classificam isso como “tumulto” ou “vandalismo generalizado” e negam a cobertura.

O Desgaste Natural (A Manutenção é Sua)

Seguro é para eventos imprevistos e súbitos. Se o motor do seu carro fundir porque você não trocou o óleo, ou se o encanamento da sua casa estourar porque os canos eram velhos e enferrujados, a seguradora não paga. Eles chamam isso de falta de manutenção ou desgaste natural.

4. O Perigo do “Perfil” e a Mentira do CEP

4. O Perigo do "Perfil" e a Mentira do CEP

Na ânsia de baratear o seguro, ou instruídos por maus profissionais, muitos clientes cometem erros no preenchimento do Questionário de Avaliação de Risco.

O Condutor Principal

“Vou colocar o seguro no nome do meu pai, que é idoso e mora no interior, mas quem dirige sou eu, jovem de 20 anos na capital”.

Isso é considerado fraude. As seguradoras possuem departamentos de investigação robustos. Em caso de sinistro grave, eles entrevistam porteiros, vizinhos e checam redes sociais. Se descobrirem que o condutor habitual não era o declarado, a indenização é negada sumariamente (perda de direito).

A Garagem e o Trabalho

Dizer que o carro dorme em garagem fechada quando ele fica na rua, ou omitir que você usa o carro para trabalhar (visitar clientes, Uber), também são motivos clássicos de recusa de pagamento que não são enfatizados na hora da venda. A regra é clara: a boa-fé deve prevalecer. Mentir para economizar R$ 300,00 pode custar R$ 80.000,00 depois.

5. Seguro de Vida: Doenças Preexistentes e Carências

Saindo do mundo automotivo e entrando no seguro de vida (um nicho importantíssimo), as omissões na contratação são ainda mais delicadas.

A Declaração Pessoal de Saúde (DPS)

Ao contratar um seguro de vida, você geralmente preenche um formulário sobre sua saúde. Se você tem hipertensão ou diabetes e marca “não” para “doenças preexistentes”, a seguradora pode negar o pagamento à sua família no futuro.

  • O que não destacam: Se você não sabia que estava doente, a cobertura é válida. Mas se você já tomava remédios e omitiu, é considerado má-fé.

O Período de Carência e o Suicídio

A lei brasileira (Código Civil) estabelece que o suicídio só é coberto após dois anos de vigência do contrato. Antes disso, não há indenização, apenas a devolução da reserva matemática (parte do que foi pago). Muitos corretores evitam tocar nesse assunto mórbido, mas é uma cláusula padrão e irrevogável.

6. Assistência 24 Horas: O Limite da Guincho

Essa é uma das surpresas mais desagradáveis na beira da estrada. Você compra o seguro e vê lá: “Guincho 24h”. Você assume que, se o carro quebrar no meio de uma viagem para a Bahia, o guincho vai te buscar e levar seu carro de volta para casa em São Paulo.

Errado.

A maioria das apólices básicas tem um limite de quilometragem para o guincho (ex: 100km, 200km ou 400km).

  • Se você está a 600km de casa e seu limite é 200km, o guincho leva o carro até a oficina mais próxima dentro do raio, ou você paga o excedente do km rodado do seu bolso — e o preço do km de guincho particular é altíssimo.

  • Dica de Ouro: Sempre verifique se a assistência de guincho é “Ilimitada” antes de fechar. A diferença de preço costuma ser irrisória perto do benefício.

7. Seguro Residencial: O Conceito de “Roubo” vs. “Furto Simples”

7. Seguro Residencial: O Conceito de "Roubo" vs. "Furto Simples"

Você contratou seguro para sua casa. Um dia, você chega e percebe que sua bicicleta cara sumiu da garagem aberta, ou que alguém levou seu notebook que estava na varanda, sem arrombar nenhuma porta.

A seguradora provavelmente não vai pagar. Por quê?

A maioria das apólices cobre Roubo ou Furto Qualificado.

  • Furto Qualificado: Deixa vestígios de arrombamento (porta quebrada, janela forçada, fechadura estourada).

  • Furto Simples: O bem desaparece sem vestígios de violência ou rompimento de barreira.

Muitas seguradoras não destacam que o “Furto Simples” é um risco excluído. Se você deixou o portão destrancado e entraram, tecnicamente, facilitou-se o crime, e a cobertura cai por terra.

8. A Classe de Bônus: Seu Ativo Intransferível (Quase)

A Classe de Bônus é um desconto progressivo que você ganha a cada ano que passa sem acionar o seguro. É como um programa de fidelidade.

O que as seguradoras não explicam claramente é como você perde esse bônus.

  • Acionar para Pequenos Reparos: Se você acionar o seguro para trocar um farol ou um retrovisor (usando as coberturas adicionais de vidros), em algumas seguradoras isso não tira bônus, mas em outras pode tirar.

  • Sinistro de Terceiros: Se você bate no carro de alguém e aciona o seguro apenas para consertar o carro da vítima (Danos a Terceiros), você perde uma classe de bônus na renovação. Às vezes, se o conserto for barato, vale mais a pena pagar do bolso e manter o bônus intacto, pois o desconto na renovação pode ser maior que o custo do reparo.

Outro ponto: O bônus é do CPF, não do Carro ou da Corretora. Você pode trocar de carro, de seguradora e de corretor, e o bônus vai junto com você. Não deixe um gerente de banco dizer que você “perde o bônus se trocar de banco”. Isso é mentira.

9. Seguro Prestamista: A Venda Casada “Invisível”

Muitos leitores deste site buscam empréstimos e financiamentos. O que os bancos e financeiras raramente destacam (ou avisam muito rápido) é a inclusão do Seguro Prestamista.

Esse seguro serve para quitar a dívida em caso de morte ou desemprego do pagador. É um produto útil, mas muitas vezes é empurrado como “Venda Casada” (o que é ilegal no Brasil). O gerente diz que “a taxa de juros fica menor se levar o seguro”.

  • O Segredo: Você tem o direito de cancelar esse seguro a qualquer momento e pedir a devolução proporcional do prêmio pago, mesmo que o empréstimo ainda esteja ativo. Poucos consumidores sabem que podem reaver esse dinheiro.

10. Como se Proteger: O Checklist da Contratação Segura

Você já ouviu falar do efeito Diderot nas finanças?

Agora que você conhece as armadilhas, como garantir uma contratação segura? Não confie apenas na palavra do vendedor. Use este checklist:

  1. Leia as “Condições Gerais”: Não precisa ler tudo, mas dê um “Ctrl+F” (busca) por palavras como “Riscos Excluídos”, “Carência” e “Limites”.

  2. Simule o Sinistro: Pergunte ao corretor: “Se acontecer X, exatamente quanto eu recebo e quanto eu pago?”. Peça a resposta por e-mail.

  3. Verifique a Cobertura de Terceiros (RCF-V): O padrão é baixo (R$ 50 mil). Se você bater numa BMW ou num caminhão com carga, R$ 50 mil não paga nem o para-choque. Peça pelo menos R$ 100 mil ou R$ 200 mil. Custa pouco a mais e evita sua falência pessoal.

  4. Não minta no perfil: A economia porca de omitir um condutor jovem nunca vale o risco de perder a indenização integral.

  5. Corretor Especialista vs. Gerente de Banco: O gerente de banco vende seguro como meta. O corretor de seguros vive disso e tem responsabilidade civil sobre a apólice. Prefira sempre um corretor especialista que possa defender seus interesses em caso de disputa com a seguradora.

Informação é a Melhor Cobertura

As seguradoras são instituições financeiras essenciais para a economia. Elas permitem que assumamos riscos (dirigir, abrir empresas, viajar) sabendo que existe uma rede de proteção. O problema não é o seguro em si, mas a assimetria de informação entre quem vende (que sabe tudo) e quem compra (que muitas vezes não sabe nada).

Ao entender o que as seguradoras não destacam, você deixa de ser um comprador passivo e se torna um consumidor consciente. Lembre-se: uma apólice de seguro é um contrato legal. O que vale é o que está escrito, não o que foi prometido no cafézinho.

Proteja seu patrimônio, mas proteja também o seu direito de saber exatamente o que está comprando.

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